ENÉAS LOUR É ATOR, DRAMATURGO, CENÓGRAFO E DIRETOR TEATRAL

30 de jan de 2010


 
Encontro do Povo Guarani
irá reunir mais de 800 índios
sul-americanos no Paraná

A história mostra que as formas de dominação são
sempre acompanhadas pela violência simbólica,
de ataques contra a cultura do povo a ser dominado.
Passados mais de cinco séculos desde a ocupação
européia do continente, baseada num processo de violência
que praticamente dizimou os povos originários,
as populações de indígenas resistem aos problemas
do presente e buscam formas de afirmação de sua cultura.

Neste cenário de grandes dificuldades,
a etnia guarani, que no Brasil é formada pelos sub-grupos
Mbya, Kaiowa e Ñhandeva, resiste e ainda consegue
manter o seu teko, isto é, a maneira do índio pensar,
agir e se comportar, a sua visão de mundo: a sua cultura.

Para fortalecer os laços identitários,
ampliar a organização em defesa seus interesses
e ampliar o diálogo com os não-índios,
os guarani se reunirão no
Aty Guasu Ñande Reko Resakã Yvy Rupa
- Encontro dos Povos Guarani da América do Sul - 
que será realizado na aldeia indígena Tekoha Añetete,
localizada no município de Diamante D’Oeste,
no Paraná, entre os dias 02 e 05 de fevereiro de 2010.

O evento contará com cerca de 800 indígenas
Guarani do Brasil,  da Bolívia (Chiriguano),
do Paraguai (Ache-Guayaki, Kaiowa, Mbya e Ava-Guarani)
e da Argentina (Mbya), que irão debater e apresentar
reivindicações aos representantes dos governos
dos países sul-americanos que integram o fórum.
Além das questões relacionadas à cultura,
os problemas relacionados aos territórios guarani,
como o atraso nas demarcações,
as constantes invasões promovidas por grileiros
e latifundiários e escassez de terras de algumas reservas,
são alguns principais pontos
que serão debatidos no encontro.




 

 "Viver é um descuido prosseguido."
 João Guimarães Rosa
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28 de jan de 2010



A Cantora Careca

Esta peça mudou a cara do
Teatro em Curitiba nos anos 80.
O texto do genial Eugéne Ionesco
foi a primeira direção de Macelo Marchioro
que reunia um elenco
da mais alta qualidade de nosso teatro
(Odelair Rodrigues, Glda Elisa, Enéas Lour,
Jane Martins, Beto Guiz e José Basso)
e estreou no então Teatro da Classe
(hoje Teatro José Maria Santos)
no dia 07 de novembro de 1984.


Na foto: José Basso, Enéas Lour e Gilda Elisa em 1984.
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Um conselho do velho Nelson Rodrigues:
"Envelheçam, jovens!
Envelheçam antes que seja tarde!"

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27 de jan de 2010


HOJE É QUARTA-FEIRA: DIA DE COBRAS



Numa entrevista à TV, o escritor português
Antonio Lobo Antunes
disse que todo escritor ao ser indagado sobre
as influências que o levaram a escrever
costuma citar Joyce, Prous entre outros.

Para ele, isso é conversa de intelectual:

"Quem nos leva a escrever é Flash Gordon”



“Muito antes de conhecermos os 
grandes escritores
a nossa vontade de contar histórias já nos foi
despertada por aqueles autores ditos menores,
mas, que apaixonam nossa imaginação."

Ariano Suassuna
recorda ter visto na infância o filme
"Flash Gordon no Planeta Mongo"
e disse:
“Quando vi a chegada do homem à Lua

pela televisão, fiquei decepcionado.
Flash Gordon era mil vezes mais interessante."


Flash Gordon é o nosso inconsciente coletivo
posto a nu e deve ser revelado
às crianças antes que elas sejam
vacinadas contra a imaginação.

26 de jan de 2010

LIVROS BACANAS








 “ANA, A ANÃ ”


Desde nascença já era anã, a pobre.
Das minúsculas mesmo e cabeçudas - as mãos gorduchas, os dedos-tocos, testa em ovo e o pior: as perninhas bem cambaias.
Os pais medianos normais, mas, uma tia aberratória havia: Tia Laurinha, a nanica.
Tinha um nome bem curtinho a anã: Ana.
Nome posto pela mãe em desaviso, antes mesmo de saber ou desconfiar que a filha fosse ser assim: miúda para sempre.
Vivia a pobre, depois de entender os fatos, lá pelos doze anos ainda, já amuada e tristezinha. 
Na escola, os colegas debochavam, pra seu maior sofrer ainda, diziam : ... “coisa pouca! ... meia sombra! ... bibelô!”... essas coisas.
Aninha foi levada a doutores com diplomas; a santas-benzedeiras; a macumbas fervorosas; a capelas milagrosas de milagres consagrados e : nanja!  O nanismo era eterno para ela! Não crescia nem um tico a pequena pequerrucha.
Veio o tempo adolescente e trouxe, lá pras amigas, os peitinhos empinados? Sim.
Os quadris mais requebrantes, os batons, os brincos e carmins? 
Sim. 
E namorados beijoquentos? 
Sim!
Mas, pra ela, o tempo trouxe um andar mais balançado, umas banhas mais gorduchas e nenhum olhar que não de curiosa chacotice. 
Nenhum namorado teve. Nenhumzinho só que fosse!
Aos quinze, as amigas dançaram a valsa com os pais. Ela não : dispensou. 
Ia se achar risível no salão a pixotinha, tendo o pai em corcundas forçadas rodopiando sob os olhares e risos do baile. Não quis, por mais que o pai dissesse que ninguém se atreveria a rir. Não quis.

Ela, nas noites do seu quarto, se sonhava:
toda alta, toda linda, numa praia ensolarada e sem as roupas de criança. 
Mas, os dias acordavam e ela via o tronco grosso, mais e mais a cabeçorra, menos pernas, menos braços e os seios mais boludos. 
Tinha ódio: ojeriza.
Um dia, já contava mais de trinta anos, morreu a mãe e, aos trinta e três morreu o pai.
Ficou sozinha a anã no casarão vazio. 
Viu no espelho que já eram rugas mais profundas as que tinha. 
Viu que eram branquinhos os seus tufos de cabelos laterais.
Viu que o tempo não trazia senão mais marcas e mais nada para ela.
Chorou então umas muitas lagrimazinhas miúdas e encheu mais um pouco o aquário olhando os peixes nadarem entre as bolhas de ar e as algas e depois saiu para a rua.
Andou a anã até a ponte enorme que liga a cidade ao continente e,
com seus passinhos bem tortos, chegou ao meio da enorme estrutura de aço, para  lá de cima olhar o mar lá embaixo.
Era cinza - de um cinza escuro e de espumas suicidas - o mar que se apresentava. Era um mar convidador e aberto em enormidades salgadas para o mergulho.
Ela ficou ali, com o olhar navegando sobre as ondas dançarinas com suas saias rodadas de rendas brancas de espuma.

Ele vinha vindo sem nada saber de nada da vida da anã que estava ali por um fim. Veio vindo nos seus passos, mãos no bolso e assobios. Viu a mulher-tão-pequena com aquele triste olhar tão grande sobre o mar e foi passando por ela, na reta de seu caminho normal.
Quando ele estava já há dois passos passados, ela virou-se e disse com sua voz de criança velha :
- Ei, você!...
Ele olhou e ela disse assim, bem nervosa, para ele:
- Você me beija, se eu te pedir? ... Me beija?
E ele sem respirar, bem parado :
- Eu? ... Eu beijo.
Pois assim que ele disse isso, a pequena fechou os olhos e
fez assim um biquinho com os lábios.
E então ele abaixou-se e, antes olhou para os lados vendo se vinha alguém, depois beijou bem de leve a boquinha de Ana, a anã.
Ela manteve por um tempo os olhos fechados e saboreou os mistérios do primeiro beijo bocal da sua vida. Chegou até a suspirar baixinho das delícias que sentia.
Ele encabulou em vergonhas de que algum conhecido o visse e,
já ia indo, quando ela outra vez : 
- Mais um se eu te pedisse?
- Não. ... me desculpe! ... (E foi indo.)
- O último, eu juro! Te dou meu dinheiro! (Ele parou.)
Ana subiu no alambrado da ponte e pediu :  
- Me beija antes que eu pule?
Ele não sabia que palavras usar e disse :
- Eu beijo! ... Mas, desça! ...
Ela não desceu e fez biquinho de novo, agora, de cima da murada, na altura certa dos lábios dele.
Ele beijou a anã e sentiu a língua dela lamber sua boca por dentro
com uma gula gigantesca.
O homem teve medo e nojo de estar ali beijando uma anã desconhecida e sentindo suas íntimas salivas. Afastou a boca depressa e deu as costas pra ela : - Adeus! ...
E foi indo ponte afora passando a manga da camisa nos lábios
e sem nem se importar com mais nada.
Nem com o dinheiro, nem nada.
Ana nem abriu os olhos: pulou.
Foram dezenas de metros abaixo.
Dezenas.
E, em pleno vôo, ela sentiu a crescente metamorfose,
como em mágica, em fantasia final: era grande o seu minúsculo corpo agora, solto no espaço vazio! Era enorme! Cortava os ventos em reta descida.
Crescia a grande emoção e agora ela era linda, com os cabelos voando sem freios, sem peso, com os braços abertos e mais nada que não fosse só o mar chegando para o abraço...

Lá da ponte ele viu o pequeno corpo descendo,
depois viu a boca da água engolindo a mulherzinha e mais nada.

A noite já vinha chegando e em casa a mulher e os filhos. Foi-se embora o homem temendo a complicação.
Passou antes no bar de sempre pra beber, e depois, foi pra casa dormir.

No outro dia na praia encontraram
- dizem, não  sei se é verdade -
uma imagem de santa pequena:
de Sant’Ana, há quem afirme.
E mais - dizem - que a tal santa pequena, 
apesar da lágrima salgada
que verte dos santos olhos vez por ano,
mantém sempre os olhos fechados
e faz com os lábios assim:
um biquinho, num quase-sorriso miúdo.

Enéas Lour / 2000

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Vai lá!
 

25 de jan de 2010








Enéas Lour como o Dr. Treves na peça
"O HOMEM ELEFANTE"
direção de Luiz Roberto Meira
Guairinha 2003



O velho dinossauro trabalhava
como fóssil no museu.
Achava muito enfadonho não poder se mexer,
mas, eram os ossos do ofício!

Mini contos de Carlos Seabra

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24 de jan de 2010



Foi inaugurada recentemente,
em São Luiz do Purunã, a
Avenida Mário Schoemberger,
uma homenagem da população autóctone
daquele lugarejo a um dos mais talentosos
atores do Paraná, falecido em 2008.
Estiveram presentes à cerimônia
de descerro da placa muitas personalidades
da área das Artes Cênicas paranaenses,
entre as quais a coluna destaca:
Odelair Rodrigues e Lala Schneider, as
"Black and White First Ladies" de nossos palcos;
o renomado Zé Maria Santos também esteve "Lá",
além dos diretores
Cleón Jacques, Roberto Menghini,
Antonio Carlos Kraide e Oraci Gemba.
Também marcaram presença alguns atores,
atrizes e bailarinos locais, como
Ailton Silva, Rita Pavão, Lineu Portela,
Olinda Wischral, Beto Rafael e o artista plástico
e dramaturgo Raul Cruz.
E ainda estavam presentes algumas personalidades da velha guarda,
como o casal Edson e Delcy D'avila,
Luciana Cherubim, Maurício Távora
e o professor Armando Maranhão.

A nova via liga a mansão Lourtiz à região
da Zona Oeste do Lago da Nascente
do Rio Tamanduá
e tem extensão de quase 50 metros (!)
com Pista Dupla!


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23 de jan de 2010




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Para pintar o retrato de um pássaro

Primeiro pinte uma gaiola com a porta aberta.
Depois pinte algo gracioso,
algo simples, algo bonito,
algo útil para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore em um jardim
em um bosque ou em uma floresta.
Esconda-se atrás da árvore sem falar,
sem se mover...
Às vezes o pássaro aparece logo
mas, ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos, se for necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultado do quadro.
Quando o pássaro aparecer,
se ele o fizer,
observe no mais profundo silêncio
até ele entrar na gaiola
e, quando ele assim agir.
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então, apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar
na plumagem do pássaro.
Em seguida, pinte o retrato de uma árvore
escolhendo o mais bonito de seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde
e o frescor do vento, o dourado do sol
e a algazarra das criaturas, na relva,
sob o calor do verão.
E então espere até que o pássaro decida cantar.
Se ele não cantar é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza, você arranca
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome em um canto do quadro.

 Jacques Prévert

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21 de jan de 2010




VELÓRIO

(pensamentos no passamento)

Seu bafo: vinagre.
Seu hálito: esgoto.
Seu suor: gosma.
Sua bunda: caída.
Sua orelha: ostra.
Seus pelos no nariz: nojo.
Sua sombra: bolor.
Seus calos nos dedos dos pés: caramujos.
Suas sobrancelhas: taturanas.
Sua barba: lixa.
Suas unhas: tartarugas.
Sua risada: trombeta.
Seu umbigo: o poço do seu mundo.
Sua cabeça: pocilga.
E este terno: azul e cinza
eu mesma escolhi
(e a gravatinha mirrada
e preta que você detestava
e os sapatos marrons que apertavam seus calos, também!)
O caixão e a coroa de flores custaram caro demais.
Mas,
valeu cada centavo para ver você partir
deste mundo para o inferno.
Vai!
.

Enéas Lour
Janeiro de 2010

19 de jan de 2010



IMPORTANTE PARA QUEM
QUER FAZER COMÉDIA.

CLIQUE AQUI E ASSISTA O ESQUETE DE
UM GRANDE COMEDIANTE INGLÊS : Freddie Frinton


O esquete de Freddie Frinton fazendo o mordomo bêbado
que serve o jantar à velha dama (a atriz é  May Warden)
cujos amigos convidados são invisíveis, pois que já mortos,
é um dos melhores pitéus do humor inglês.
O argumento do esquete é dos anos 1930 mas,
Frinton interpretou-o pela primeira vez em 1945.
Nos anos 50 ele adquiriu os respectivos direitos
para o levar o esquete aos palcos ingleses
sem ter que pagar royalties.
O êxito foi tamanho que foi comprado
para ser apresentado na Broadway.
Esta versão tem cerca de 14 minutos
e é em preto-e-branco.
Existe outra versão em cores na internet,
mas, a sincronização de som e imagem está muito ruim.
Freddie Frinton é um mestre em tempo de comédia!
Vale a pena assistí-lo!

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18 de jan de 2010




 Aristóteles (384 a.C. / 322 a.C.) definia dramaturgia
como a organização de ações humanas de forma coerente
provocando fortes emoções
ou um estado irreprimível de gozo.
A poética é imitação (mimesis) e abrange a poesia épica,
a lírica e a dramática: (tragédia e comédia).
A imitação visa a recriação e a recriação visa
aquilo que pode ser.
Desse modo, a poética tem por fim o possível.
O homem apresenta-se de diferentes modos
em cada gênero poético: a poesia épica apresenta
o homem como maior do que realmente é, idealizando-o;
a tragédia apresenta o homem exaltando suas virtudes
e a comédia apresenta o homem ressaltando
seus vícios ou defeitos.

"A história conta o que aconteceu; a poesia, o que deveria acontecer."
Aristóteles

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BONITO
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"Sou um escritor de peças,
mostro o que vi, no mercado dos homens.
Vi como o homem é negociado, isso
eu mostro, eu, o escritor de peças.

Para poder mostrar o que vejo
consultei os espetáculos de outros
povos e de outras épocas
reescrevi algumas peças, com cuidado
examinando a técnica usada e
assimilando
aquilo que me podia ser útil.

E também as frases que eram
pronunciadas
dei a elas uma marca especial.
Para que fossem como as sentenças
que se anota
para que não sejam esquecidas." 


Bertolt Brecht


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17 de jan de 2010


Casa LourOrtiz / São Luiz do Purunã
16/01/2010

 
Pinheiros / São Luiz do Purunã
16/01/2010



Instrumentos de trabalho / São Luiz do Purunã
16/01/2010

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Plantando um pé de acerola
em São Luiz do Purunã.
Na foto: Enéas Lour e Tiúsca.
(O Enéas é o de chapéu)

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16 de jan de 2010




Roberto Arlt é um dos precursores
da moderna narrativa argentina.
O ambiente das ruas, que o escritor
tão bem conhecia, foi inspiração
para alguns dos seus melhores textos.
Da sua amizade com rufiões, falsificadores
e pistoleiros surgem personagens
como as de seu romance  
"Os Sete Loucos",
considerado a obra-prima deste autor.





DE HOJE PARA AMANHÃ

No fim da tarde vejo 
um galho enfeitado de borboletas;
Vejo um gomo de laranja no sol;
Um por-de-sangue nas nuvens
E um traço de anoitecer 

riscando o céu com carvão.

Já, já, as estrelas abrirão seus olhos de criança
Inaugurando mais uma noite madrasta.
São mil rãs rezando roucas no brejo
E mil mariposas dançando nuas à luz da lua.

O amanhã ainda está lá longe!
Dos mares do Japão, ele vem vindo.
Ainda tenho uma noite de sono
Antes de abrir o pacote de surpresas
Que o novo dia trará.

Folha em branco imaculada, perfeita,
É o dia de amanhã.
Futuro, mais que imperfeito agora
Do que ainda se dará.



Enéas Lour
São Luiz do Purunã
15/01/10


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15 de jan de 2010

HOMENAGEM

por Roberto Vieira

Adeus, Zilda Arns: a morte dos anjos


Em certos momentos fica difícil acreditar em Deus.
Como pode um Deus permitir tanta miséria?
Melhor ser ateu.
Um ateu destes que gostariam muito
de acreditar em alguma coisa.
Um ateu rezando para estar errado.
Pois não é que hoje morreu um anjo!
Um anjo pediatra.
De sorriso lindo.
Um sorriso, me desculpem o trocadilho, angelical.
A primeira vez que vi tal sorriso foi em 1973,
na capa de uma revista esportiva
que trazia estampada o novo Cardeal de São Paulo.
Eu estudava em colégio de padre.
Onde o diretor não sorria nem deixava sorrir.
Imaginem minha surpresa!
Um cardeal de riso aberto na revista.
Com uma bandeira do Corinthians!
...

Descobri com o tempo que o sorriso daquele cardeal 
era do mais puro aço inoxidável.
Imprescindível.
Inestimável.
Dom Paulo Evaristo Arns era feito de pedra e sentimento.
Um anjo na Sé.
...

Anos depois conheci a Zilda.
Crianças no colo.
Amor pra dar sem vender.
O mesmo sorriso do irmão.
Um sorriso de Forquilhinha.
...
Quis o destino. Deus?
Levar desta terra a bela pastora.
Esse Deus que quer todos os sorrisos para si.
Pois, Deus, se é que você existe mesmo,
guarda bem este anjo que hoje se foi
quando ajudava tantos anjos numa terra
de miséria sem fim!
Guarda bem esse anjo, Deus, 
pois a Terra ficou mais vazia no dia de hoje.
E o Céu, se é que o céu existe mesmo,
o Céu ficou mais azul.




O presente texto foi extraído do


14 de jan de 2010




 

 

Deus vem vindo: ninguém não vê.
Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre.
E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.


João Guimarães Rosa


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13 de jan de 2010



 

 

A única maneira de teres novas sensações 
é construir - para ti mesmo - uma alma nova.

Fernando Pessoa

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11 de jan de 2010


“Só a obra interessa.
O autor não vale o personagem.
O conto é sempre melhor que o contista. 
...
Para escrever mil novos contos, a vida inteira é curta.
Uma história nunca termina.
Ela continua depois de você.
...
O conto não tem mais fim senão começo.
Quem me dera o estilo do suicida em seu último bilhete.”

Dalton Trevisan

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Ah! Acho que não queria mesmo nada,
de tanto que eu queria só tudo.
Uma coisa, a coisa, esta coisa: 

Eu somente queria era: ficar sendo!

João Guimarães Rosa

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10 de jan de 2010


"TAMANDUÁ E CHUVA"

Ontem: dia inteiro de chuva e as formigas reclusas nos labirintos de lama.
Hoje, logo bem cedo, tamanduá faz a festa:
Pelas frestas do formigueiro a língua desce e sobe em banquetes.
É assim: guloso do almoço à janta, dia todo.
Depois, satisfeita a fome com o sacrifício de milhares de vítimas, tamanduá prossegue a vida no passo lento de seu caminho até debaixo de uma aroeira-do-campo e ali deita o corpanzil e ressona sob o insistente batuque da chuva nas folhas, já bem lavadas.
Já no formigueiro, aos milhares, gritam as vítimas da tragédia instalada pela língua gigantesca do mamífero desdentado. Mas, não lamentam as mortes de tantas, de vez que formigas não sentem dores de viúvas ou órfãos. Gritam, isto sim, são ordens de reconstrução do castelo. Ordens de umas para outras na sucessão hierárquica lá delas. E correm em todas as direções as tais operárias histéricas, com pedacitos de folhas, de ramagens, de pauzitos, de capins e de barro, no desesperado afã de refazer novamente o labirinto.
No centro da balbúrdia instalada, a rainha - enorme de barriguda - prossegue jorrando ovos, para repor o contingente das devotadas servas que o tamanduá devorou.
E corre-corre e lufa-lufa sob o bombardeio das gotonas de chuva que explodem lá e cá a acolá e ali, como tiros de um canhão d'água celeste. A lama escorre fluida e engole alguns guerreiros que mais à frente emergem e instantâneo prosseguem na luta hercúlea da reconstrução da polis devastada.
São horas e horas e horas de intenso labor da multidão empenhada nessa tarefa, até que a chuva, talvez com dó de tanto empenho e tão parco resultado resolve aplacar seu ritmo e quase por completo parar o bombardeio.
Percebido o arrefecimento do ataque, mais ainda se empenham as minúsculas criaturas no trampo de empilhar pedritas, raminhos, bolotinhas de areia e barro para fazer os arcos e túneis do prédio do formigueiro.
Vai o dia todo nesse empenho e já a noite se agacha sobre o mundo.
Todas as operárias então se encostam aos barrancos e suspiram cansadas da faina do dia.
A rainha continua jorrando ovinhos brancos sem pausa nenhuma.
Passa a noite e vem o dia lá do leste com um solzinho miúdo secando aos poucos a paisagem e, com ele, adivinhe quem vem junto, com seu passo bamboleante e uma fome interminável?

Enéas Lour
São Luiz do Purunã 10 / Janeiro / 2010

9 de jan de 2010



Estou (eu, a Fátima, a Maíra e o Gabriel)
em São Luiz do Purunã.
Escrevendo peças novas
(DORA DESABALADA e OTTO E MARIA)
e também revendo textos antigos.
É bom isso de rever textos.
Achei uns que eu não me lembrava mais
e gostei de lembrar deles.
Rasguei outros que lembrava
mas que resolvi "deslembrar" para sempre.
Achei lá numa pasta de textos um
que eu fiz para o programa da peça "JUVENTUDE"
dirigida pelo Felipe Hirsch em 1998,
que gostei e que segue abaixo :

Pegue um dia qualquer da sua vida,
pode ser um dia de chuva ou não,
no outono ou no inverno, qualquer dia,
desde que seja depois de que
você tenha 40 anos e tenha filhos.
Pegue este dia e ponha seu filho
sentado ao seu lado,
na sala ou debaixo de uma árvore,
no sótão ou na praia ao lado do velho barco
cheio de cicatrizes de areia.
Olhe para o seu filho e diga-lhe
que ele não é imortal.
Diga a ele que a vida desliza pelo tempo
e que o Papa vai morrer,
que Madonna vai morrer,
assim como John Lennon morreu
e que morreremos todos um dia.
Diga que é verdade que a vida é eterna,
mas, com outros personagens
que se substituem a cada cena pelos anos.
Diga que você vê nele
- e através dele -
um túnel que leva ao futuro
que você nunca vai alcançar
e nem ele.
Diga que quando os homens
finalmente descerem em Marte,
um outro, que não você e nem ele,
descerá da escada da nave
e colocará sobre aquela longínqua areia vermelha
o seu pé.
Diga que o poeta e astrônomo persa,
Omar Kayhan,
estava certo em seu Rubayat
e que "a efêmera suavidade da vida,
do amor e do prazer,
são tudo o que nos resta
e tudo o que nos devia interessar
nesta curta jornada da vida".
Talvez ele não acredite em você.
Talvez, não: certamente ele não acreditará em você
porque em seus olhos a luz cegante da juventude
ainda brilha tão forte que o impede de ver o mundo,
com seus minutos galopantes e suas horas disparadas.
Mas, mesmo assim,
você lhe terá dito tudo o que um pai 

tem a dizer a um filho.
E, depois de alguns anos,
talvez sob o teto de uma outra casa,
que estará sob esta mesma lua que hoje viaja conosco,
ele dirá ao seu neto o que aprendeu com você nesse dia.


Enéas Lour / 1998

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8 de jan de 2010





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Neste 2010 faz 17 anos que estreou no Guairinha
a peça teatral
"Paisagem de Meninos"
uma adaptação do obra de
Poty Lazzarotto e Valêncio Xavier
com direção de Edson Bueno
e um elenco de bons atores.
Cenários de Rosa Magalhães
Iluminação de Beto Bruel.

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7 de jan de 2010


Medida governamental institui
cotas de exibição
para o Cinema Brasileiro


Uma medida do governo instituída no fechamento do ano de 2009 poderá abrir uma nova etapa para o cinema nacional. Em 2010, as salas de cinema do país deverão exibir dois filmes brasileiros diferentes e fixar 28 dias de exibição, conforme determina a lei batizada de “Cota de Tela”, regulamentada pela Agência Nacional do Cinema (Ancine).


A proposta tem por objetivo promover a auto-sustentabilidade e elevar a produção da indústria cinematográfica.


Com isso, conforme a redação do Decreto nº 7.061/2009, ficam obrigadas pelo cumprimento da medida as empresas proprietárias, locatárias ou arrendatárias pertencentes à mesma empresa exibidora e que integrem espaços ou locais de exibição pública comercial localizada num mesmo complexo.


Segundo a direção da Ancine, a idéia é estabelecer maior planejamento entre os segmentos de produção e de exibição do audiovisual, como é feito pelos estúdios norte-americanos.

A quantidade de dias e de filmes deverá variar de acordo com o número de salas em cada complexo. Os grandes complexos, por exemplo, terão uma cota de 64 dias e terão de exibir até 11 filmes nacionais diferentes.

www.guata.com.br

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Este é o Davi
filho do Alexandre (Xandão)
e neto do Mário Schoemberger.

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6 de jan de 2010



Numa parede de casa vejo minha cara de menino
numa fotografia preta e branca e cinza.
Em outra parede,
na que tem um espelho espetado nela,
o menino desaparece e um velho me olha
com olhos abertos de espanto.

Janeiro / 2010

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O público não quer a verdade,
mas a mentira que mais lhe agrade.

 

Fernando Pessoa.

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