ENÉAS LOUR É ATOR, DRAMATURGO, CENÓGRAFO E DIRETOR TEATRAL

10 de jan de 2010

"TAMANDUÁ E CHUVA"

Ontem: dia inteiro de chuva e as formigas reclusas nos labirintos de lama.
Hoje, logo bem cedo, tamanduá faz a festa:
Pelas frestas do formigueiro a língua desce e sobe em banquetes.
É assim: guloso do almoço à janta, dia todo.
Depois, satisfeita a fome com o sacrifício de milhares de vítimas, tamanduá prossegue a vida no passo lento de seu caminho até debaixo de uma aroeira-do-campo e ali deita o corpanzil e ressona sob o insistente batuque da chuva nas folhas, já bem lavadas.
Já no formigueiro, aos milhares, gritam as vítimas da tragédia instalada pela língua gigantesca do mamífero desdentado. Mas, não lamentam as mortes de tantas, de vez que formigas não sentem dores de viúvas ou órfãos. Gritam, isto sim, são ordens de reconstrução do castelo. Ordens de umas para outras na sucessão hierárquica lá delas. E correm em todas as direções as tais operárias histéricas, com pedacitos de folhas, de ramagens, de pauzitos, de capins e de barro, no desesperado afã de refazer novamente o labirinto.
No centro da balbúrdia instalada, a rainha - enorme de barriguda - prossegue jorrando ovos, para repor o contingente das devotadas servas que o tamanduá devorou.
E corre-corre e lufa-lufa sob o bombardeio das gotonas de chuva que explodem lá e cá a acolá e ali, como tiros de um canhão d'água celeste. A lama escorre fluida e engole alguns guerreiros que mais à frente emergem e instantâneo prosseguem na luta hercúlea da reconstrução da polis devastada.
São horas e horas e horas de intenso labor da multidão empenhada nessa tarefa, até que a chuva, talvez com dó de tanto empenho e tão parco resultado resolve aplacar seu ritmo e quase por completo parar o bombardeio.
Percebido o arrefecimento do ataque, mais ainda se empenham as minúsculas criaturas no trampo de empilhar pedritas, raminhos, bolotinhas de areia e barro para fazer os arcos e túneis do prédio do formigueiro.
Vai o dia todo nesse empenho e já a noite se agacha sobre o mundo.
Todas as operárias então se encostam aos barrancos e suspiram cansadas da faina do dia.
A rainha continua jorrando ovinhos brancos sem pausa nenhuma.
Passa a noite e vem o dia lá do leste com um solzinho miúdo secando aos poucos a paisagem e, com ele, adivinhe quem vem junto, com seu passo bamboleante e uma fome interminável?

Enéas Lour
São Luiz do Purunã 10 / Janeiro / 2010

2 comentários:

Rogério Viana disse...

Enéas,

Seu texto me fez lembrar a música FORMIGUEIRO (Ivan Lins e Vitor Martins).

Avisa ao formigueiro
Vem aí tamanduá

Pra começo de conversa, tão com grana e pouca pressa
Nego quebra a dentadura mas não larga a rapadura
Nego mama e se arruma, se vicia e se acostuma
E hoje em dia está difícil de acabar com esse ofício...

Avisa ao forigueiro
Vem aí tamanduá

Repinique e xique-xique, tanta coisa com repique
Pra entupir nossos ouvidos, pra cobrir nossos gemidos
Quando acabar o batuque aparece outro truque
Aparece outro milagre do jeito que a gente sabe...

Avisa ao formigueiro
Vem aí tamanduá

Tanto furo, tanto rombo não se tapa com biombo
Não se esconde o diabo deixando de fora o rabo
E pros "home" não tá difícil de arrumar outro disfarce
De arrumar tanto remendo se tá todo mundo vendo...

Avisa ao formigueiro
Vem aí tamanduá

Quem quiser pode aproveitar a letra e as cifras e com seu violão, pode cantar.

http://vagalume.uol.com.br/ivan-lins/formigueiro-cifrada.html

Rogério Viana disse...

Enéas,

Seu texto me fez lembrar a música FORMIGUEIRO (Ivan Lins e Vitor Martins).

Avisa ao formigueiro
Vem aí tamanduá

Pra começo de conversa, tão com grana e pouca pressa
Nego quebra a dentadura mas não larga a rapadura
Nego mama e se arruma, se vicia e se acostuma
E hoje em dia está difícil de acabar com esse ofício...

Avisa ao forigueiro
Vem aí tamanduá

Repinique e xique-xique, tanta coisa com repique
Pra entupir nossos ouvidos, pra cobrir nossos gemidos
Quando acabar o batuque aparece outro truque
Aparece outro milagre do jeito que a gente sabe...

Avisa ao formigueiro
Vem aí tamanduá

Tanto furo, tanto rombo não se tapa com biombo
Não se esconde o diabo deixando de fora o rabo
E pros "home" não tá difícil de arrumar outro disfarce
De arrumar tanto remendo se tá todo mundo vendo...

Avisa ao formigueiro
Vem aí tamanduá

Quem quiser pode aproveitar a letra e as cifras e com seu violão, pode cantar.

http://vagalume.uol.com.br/ivan-lins/formigueiro-cifrada.html