ENÉAS LOUR É ATOR, DRAMATURGO, CENÓGRAFO E DIRETOR TEATRAL

9 de fev de 2010

MINIMALISTA


  

MINIMALISTA

Eram dezenas de flores amarelas na beira do lago,
em moitas, misturadas aos estames verdes das tabôas,
que se balançavam pra lá e pra cá, como crianças brincando.
O sol lavava o lago com uma cor avermelhada
e dava brilho com milhares de raios.
A tarde saracoteava pelo campo
e eu sentado na cadeira me balançava também,
pra lá e pra  cá,
como se fosse criança brincando devagar.
No mar azul do céu três navios-nuvens
ancorados em branco.
De repente, uma das flores amarelas enlouqueceu.
Jogou-se no ar e bateu asas, como uma borboleta amarela
idêntica às outras flores, porém, endoidada.
Voou essa flor bailarina por cima de nós
que a observávamos encantados na platéia:
eu e as outras flores amarelas.
Num gran-jeté-elancé e depois em pequenos deboulés glissé
a flor transformada em borboleta se exibia
e as outras murchavam amareladas de inveja
da menina voadora.
Os olhos dela, da ensandecida,
viam o lago de cima, duma perspectiva que as outras,
normais que eram,
nunca divisariam, pois que, presas aos caules,
como flores normais que eram,
jamais poderiam ver o lago como uma poça,
senão como enorme oceano circundante.
Ela - a flor suicida que se jogara no ar
feito borboleta amarela - não!
Ela via o lago todo incendiado naquela tarde.
Via as rãs dormitando a espera da lua,
para cantarem em coro;
via a noite vindo lá longe;
via a folha ao vento que com ela fazia o pás de deux;
via a minha cadeira de balanço e eu sentado ali;
via meus olhos correndo atrás dela pra lá e pra cá;
via meu sorriso em minha cara de velho assistindo
sua dança elétrica na paisagem
e via minha satisfação em vê-la arriscar-se
- intrépida bailarina -
no palco daquele dia estendido na beira do lago.
Depois anoiteceu e as rãs comentaram 
- críticas de arte que são -
a performance minimalista da flor insana,
entre si e para a lua.
Deram-lhe nota seis e a esqueceram.

Enéas Lour
Fevereiro de 2010
na beira do lago
em São Luiz do Purunã.