ENÉAS LOUR É ATOR, DRAMATURGO, CENÓGRAFO E DIRETOR TEATRAL

11 de mar de 2010

SOU GITANO



Sou Gitano
(Novo Mundo)


Que horizonte é esse que rasgo todos os dias
com minhas pegadas,
com as rodas do meu carroção?

Que coração nômade me impulsiona, me guia?

Que ponto cardeal guia a agulha da minha bússola?

Meu sangue não conhece outros caminhos,
senão todos os caminhos do desconhecido.

Meu mundo é todo o mundo
e as fronteiras são riscos em mapas que não existem.

Sou gitano, sou meu norte, meu sul, meu leste e meu oeste.

Sou gitano e o mundo é velho conhecido dos meus olhos.

E o Novo Mundo é amanhã e sempre.

A América é minha,
A Europa, Ásia, África e Oceania!

O mundo é meu quintal e meu jardim.

Nem brasas, nem mares, nem palavras tortas,
nem olhares, nem sal, nem punhais
invertem minha caminhada para qualquer horizonte.

Meu pai, meu avô e meu tio,
com suas músicas e anéis,
cruzaram a terra em xis
na ida e nunca na volta.
Deixando em cada outeiro berço e jazigo.
Levando em cada ponte-suela dos cavalos
novo ferrete, nova bandeira riscada,
novo gualdrope em cada mastaréu
nas embarcações sobre os rios
e os mares que cruzaram.

Meu punho já deu campanha em sítios
onde comem água e fel.
Deu copo, deu talho, deu moeda e escaravelho.
Deu tinta ao sangue e ao vinho.
E esta mão barça, goliarda e davídica,
Mão gitana e mundana,
Já deu de razoar e de fulminar,
de saciar e de subtrair.
De cultuar e descravar deuses, 
deusas e sacerdotes.

E hipocampos, capricórnios e medusas,
com a sevilhana, minha mão abriu
e rasgou compromisso.

Novo mundo em cada cunhal.
Nova pirâmide erguida em cada instância,
como prova de senhorio.

Com meu gládio fiz estrelas 
e pus minha marca, 
sem apartar jamais meu lamento,
em cada tinir da castanhola de marfim, 
em cada castão de bengala.

Hirto e ereto é meu corpo 
e drávida minha pátria,
que é o meu falar.

Vindo de egípcias areias
que meus olhos ferrabrases poliram digo:
Sou gitano e não escolho senda!
Sou gitano e o mundo é meu!

Não há sevícia ou requesta
que eu não confronte.

Pólux é meu rumo, 
Atlante meu caminhar
para o novo do mundo,
que é o dia que vem adiante.

Meu passo faz o caminho.
Minha morte é o meu renascer.

Sou gitano e meu canto é vida!
Sou gitano e o mundo é meu!

No três por oito da seguidilha
- ou na bolera -
minha guitarra lamenta e compassa.

Minha dança sincopada é meu pulso.

Minha alma traz vidrilho e medalhitas!
Traz esporas, traz touradas, banderilhas!
Rasga imagens,
flor-de-sangue,
Santa Sara Kali.

Sou gitano e sou corsário,
sou gitano e o mundo é meu!

Marralheiro e marrano é o mundo
em suas entranhas, eu não!

Meu ancinhar procura mais que ouro
nas terras de Gualdaquivir.

Das minas, dos mananciais de riqueza,
quero a farroma e a festa
e não o ouro dos príncipes da terra.

Chibante de São Genaro, 
casquilho de Beatrizes,
meu canto não faz reparo 
à damas ou meretrizes.

Sou gitano e meu canto é vida!
Sou gitano e o mundo é meu!

O fandango madraço ou vibrante
é o sino que respalda minha igreja.
Minha hóstia é o pão sarraceno,
meu purgatório é o jejum,
meu pecado é nenhum.

Não há quem mate por mim,
não há quem viva por mim.

Sou gitano e meu canto é vida!
Sou gitano e o mundo é meu!

Merlim engoliu sete espadas!
O mago criou oito versos,
fez giro na casa de Marte
Fez passo na corda-de-nós.

Zigurate ornado em açucenas,
do meu carro a capota é o céu.

Sou gitano e meu canto é vida!
Sou gitano e o mundo é meu!

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(Texto e ilustração digital de Enéas Lour)


3 comentários:

Rodrigo6xas disse...

Grande Eneas! Maravilha de texto!
Todos nos temos um guitano que, se alimentado por bons textos como este, rompe as barreiras de nosso mundo cotidiano!
Abraco!
Rodrigo6xas!

Linhares disse...

!!!

beijo

Sonia disse...

iOlé, tú!