ENÉAS LOUR É ATOR, DRAMATURGO, CENÓGRAFO E DIRETOR TEATRAL

29 de abr de 2010

ESPERAnça

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ESPERAnça

Era um sol latejado que fazia 
as sombras de tudo ficarem mais fortes, desenhadas na areia.
Ela cozinhava o dia com as crianças largadas ali no pátio e, 
volta e meia, 
o olhar lá na curva do mar aberto. 

A testa franzida. 
Uma mão cobrindo o sol e a outra apoiada na anca.
Ele tinha ido já há quase oito anos, 
mas, ela sabia que, 
como o sol, ele voltaria um dia.

Na bacia de sempre, 
de todos os dias, chuva ou sol, 
ela espremia as cabeças de peixe e camarões para o almoço. 
Os olhos duros, esbugalhados, olhavam como ela envelhecera.
Trazia as rugas fundas na testa 
e nos cabelos agulhas brancas espetavam aqui e ali 
a cabeça da mulher sozinha com suas crias.
Comeram.
Ela e os guris, 
como quem mastiga os dias, 
sempre os mesmos.

Depois, 
os guris correram pros seus mundos 
beira d’água salobra nos pés da ponte velha 
e ela lavou os pratos na bica. 

Jogou os restos num buraco 
e cobriu com areia quente.

Três e meia e os olhos dela
foram outra vez para a curva do mar aberto.
Maré enchendo, 
hora boa de entrar com a canoa 
pela boca da enseada 
bordando a proa com rendas de espuma. 

Mas, nada. Nem sinal da canoa dele.
Sete e meia a vazante e a noite e, 
na escuridão, ninguém entra de canoa por ali.

Então: ainda não foi hoje que ele voltou.

No oco da casinha torta 
ela pôs a farinha sobre a mesa 
e quebrou um ovo. 
Um gole dágua.

Fazer o pão.

Amassar cada segundo na tarefa.

As mãos estrangulam a massa 
denunciando a raiva 
e a batem na mesa como se, 
surrando o pão,
ela pudesse se vingar dele.

Dentro dela o amor fermentava ódio.
Ela deixou o pão crescer, 
coberto com um pano de prato branco 
onde se lia, 
em letras bordadas em vermelho vivo: 

“Amanhã é um novo dia”

(ilustração de Enéas Lour)


Enéas Lour
Jan/2008

2 comentários:

Rosemary Ghinhon disse...

Lindo texto!
Sou sua fã!
Parabéns.
Beijo na Fátima

G. MARTINS disse...

Muito bom!