ENÉAS LOUR É ATOR, DRAMATURGO, CENÓGRAFO E DIRETOR TEATRAL

15 de abr de 2010

ATENDENDO A PEDIDOS AÍ VAI A PRIMEIRA CENA DO TEXTO

REIVALINO E DAGOBÉ
(ambos os dois assassinos contratados)

Texto de Enéas Lour para dois atores
vencedor do Edital de Novas Dramaturgias da
Fundação Cultural de Curitiba / 2009

CENÁRIO : 
DE INÍCIO É A LUZ E SONS DO DIA, DEPOIS A LUZ E SONS DA TARDE. 
DEPOIS A LUZ E SONS DA NOITE E DEPOIS AINDA, AS LUZES E SONS DA MADRUGADA. E, SEMPRE, OS BARULHOS CERTOS DO MUNDO DO EM TORNO, NUM MESMO MEIO DE MATO, PERTO DE UMA ENCRUZI-LHADA, LÁ NOS CAFUNDÓS-DO-JUDAS. 
AQUI E ALI, COM ENTREMEIOS, É MATO QUE SÓ, FECHADO, AS GALHARIAS.
UNS POUCOS SEMI-ABERTOS CAPÕES SE REVEZAM NA PAISAGEM GERAL EM ESPAÇOS VERDE-MARRONS CORTADOS POR ESTRADAZINHA, FEIA EM MACADAMES E BEM TORTA EM CURVAS QUE SE ADIVINHAM, UMA DEPOIS DA OUTRA, BEM PRÓXIMAS ENTRE SI.
NO AMOITAMENTO DE CADA UMAS DAS DUAS PERSONAGENS, EM CADA CURVA NO INÍCIO E DEPOIS MAIS, BEM AJUNTADOS, HÁ QUE HAVER MAIS GALHOS, MAIS FOLHAS EM CAMUFLAGENS NECESSÁRIAS PARA A TOCAIA.
PODE QUE HAJA - E HAVERÁ SE DER NO JEITO DAS TÉCNICAS - UMA GAROA - QUASE QUE CHUVA BEM LEVE - POR CIMA DE TUDO, EM ESPECIAL NA MADRUGADA.
E TAMBÉM - POR MÍNIMA - UMA FOGUEIRAZINHA, QUE NÃO DENUNCIE SINAL A OUTROS DE QUE ALI SE AMOITAM OS DOIS MATADORES CONTRATADOS, NA ESPREITA.

ADEREÇOS  
ALÉM DA PAISAGEM, CADA UM DOS TAIS MATADORES - REIVALINO E DAGOBÉ - TRAZEM CONSIGO, CADA QUAL AS SUAS FERRAMENTAS DE USO PROFISSIONAL E PARTICULAR: SUAS ARMAS, SEUS FERROS, SEUS COUROS, PELEGOS, CUIAS, ARREIOS, CANECAS, BULES E LEMBRANÇAS ATÉ, QUE DEPOSITAM BEM FÁCIL AO LADO PARA PEGAR E SUMIR, SE CARECER DE.

FIGURINO 
CADA QUAL TEM SEU JEITO, OS DOIS BEM DIVERSOS, MAS, AMBOS BEM SIMPLES QUE SÃO. 
QUASE SEMPRE O ALGODÃO, O COURO E O BRIM NOS TRAJES. BOTINA OU CHINELO ALPARCATA, CINTURÕES, BAINHAS, CHAPÉUS EM PALHA, EM COURO TAMBÉM. 
MANTA, LÃ, ATÉ REDES PODE SER, DAS MAIS ENGANCHADAS E SOLTAS DEPRESSA.
   
CENA 01 - APRESENTAÇÃO

DESDE QUANDO O PÚBLICO ENTRA NO ESPAÇO CÊNICO PARA SENTAR-SE, UM VIOLEIRO COSTURA UMA MÚSICA DE VIOLA PONTEADA. 
DAGOBÉ - COMO UM  BICHO DENTRO DO NINHO - É O PRIMEIRO A SE FAZER NOTAR NO SEU CANTO, AMOITADO, PARA A SURPRESA DA PLATÉIA.
O DIA AMANHECE E O MULATO DAGOBÉ - DEPOIS DE VIGIAR O ENTORNO, CERTIFICANDO SEGURANÇA - SAI DO ABRIGO E MIJA FOLGADO NUM TRONCO DE PÉ-DE-PAU NUM CANTO DO ESPAÇO. 
A DOIS-CANOS APOIADA COM A CORONHA NO CHÃO, AO LADO E À MÃO.
OUVEM-SE PIAR AQUI E LÁ UNS QUERO-QUEROS, UMAS SABIÁS, ESSAS COISAS VOANTES E CANTANTES DE MEIO DE MATO NAS MANHÃS. NÃO OS GALOS, POIS QUE ESTES SÓ VIVEM EM REDONDEZAS HABITÁVEIS POR GENTES ESTABELECIDAS DE FATO E, ALI ONDE ESTÃO, NINGUÉM NÃO VIVE NÃO, POIS QUE É TRECHO SÓ DE PASSAGEM. 
NEM CERCAS, NEM GADO, NEM NINGUÉM: 
É O MEIO DE MATO. 
SÓ A ESTRADAZINHA RECORTA O MUNDO, DEIXANDO DO LADO DE CÁ UMAS TERRAS QUASE VIRGENS E SEM DONO E DO LADO OPOSTO: O MESMO IGUAL QUE ANTES DO OUTRO LADO.
O MULATO DAGOBÉ - APÓS O MIJO MATUTINO - ESTICA O CORPO E DEPOIS LAVA A CARA, COM A ÁGUA DE UM CANTIL ESFREGADA ATÉ PELOS CABELOS E O PEITO E O SOVACO TAMBÉM.
NO MEIO DISSO, DE REPENTE, UM ESTALIDO DIVERSO E O MULATO PULA PRA CIMA DA ESPINGARDA E SE ESCONDE COMO PODE.

DAGOBÉ      - ... Se é do bem mostre a cara, senão eu queimo! ...

REIVALINO  - (LENTA E CALMAMENTE DEPOIS DE UM TEMPO) ... Se eu quisesse te mandar pra o Céu ou pro Inferno, é já que estava lá!... Baixe o cano devagar e se assunte pro meio do claro...

DAGOBÉ      - Quem é? ... E por quem...? ...

REIVALINO  - Eu e por mim mesmo. Me obedeça e só...

DAGOBÉ      - (SAINDO DE TRÁS DO QUE ESTAVA COM A ARMA NA MÃO PELOS CANOS)... To em paz! ... (DEIXA A ARMA NO CHÃO, MAS, PERTO) ... Quem é? ...

REIVALINO  - Arreda c’o pé a dois-canos... (O MULATO OBEDECE)... "Quem é?" - digo eu.

DAGOBÉ      - Dagobé! ... Sou eu e sou na paz, asseguro!... Se mostre, pode se mostrar!...

REIVALINO  - Que posso sei. Não sei se quero.

DAGOBÉ      -  Não há o de por quê me temer, garanto...

REIVALINO  - Sei!... Dá os dois passos atrás! ... Anda! ... (O MULATO OBEDECE)...
(PARA SURPRESA GERAL REIVALINO SURGE DE SEU ESCONDERIJO BEM PERTO DO MULATO DAGOBÉ, QUE SE ESPANTA AO VER O OUTRO COM A FACA QUASE QUE NELE. REIVALINO É BRANCO, MUITO SÉRIO, VOZ DE CÃO, MEIO ROUCA, PAUSADA, LENTA. CABELOS BEM GRISALHOS, OS POUCO COMPRIDOS ATRÁS E OS QUASE NENHUNS NA FRENTE. UM DOS OLHOS TEM PROBLEMA E SE PISCA UM POUCO EM DEMASIADO. FIGURA SUJA E MEDONHA, AINDA MAIS ARMADA DE FACA AFIADA NA MÃO DIREITA)

DAGOBÉ      -  Te arreda !

(O ESCONJURO SAÍDO DOS BEIÇOS DE DAGOBÉ SOA COMO UM NADA NAS EXPRESSÕES E NAS ORELHAS DE REIVALINO, QUE PERMANECE ALI, RENTE, FACA EM PUNHO. ENQUANTO MANTÉM O OLHO EM RISTE, TREMELICANDO DE CIMA PARA BAIXO, COMO QUEM NEGACEIA A PRESA RECÉM PARALISADA. O OUTRO, DE SUSTO UM POUCO, DE CORAGEM UM TANTO, FAZ DAS VENTAS UM SONORO FOLE, DENUNCIANDO A CABOCLA NATUREZA. A TUDO ISSO, QUE EM MIÚDOS SEGUNDOS SE SUCEDE, PONTEIA O ACORDE DE SUSPENSES VINDOS DA VIOLA. É REIVALINO QUE VAI DANDO ESPAÇO, COMO QUE A PERMITIR UM TERETETÊ)

REIVALINO  - Se me dá querência! ... (ALIVIANDO) ... Diga lá o vivente, mal perguntando, o que é que busca nestas bandas? ... (ENQUANTO FALA, VAI RONDANDO COM INTERESSE OS “TRENS” DE DAGOBÉ, DEPOSITADOS A UM CANTO) ... Que pros serviços bem honestos não parece obedecer, c’os trens que vejo que carrega...

DAGOBÉ      - Do quê é que ando em busca não carece, por agora, de assuntar o amigo. A não ser que eu tenha mijado em terras de dono.

REIVALINO  - Tem dono, não.

DAGOBÉ      - E depois, o s’or não tá diante de nenhum fi’duma cadela, que seja!

REIVALINO  -  Se é em paz que vem, não tem do quê ficar rogado, tem? De paz também sou: garanto! ... É de passagem minha aparição aqui. mas, trago comigo meus ofícios já tratados, bem pagos e bem dos modos que me encomendaram...

DAGOBÉ      -  E se pode saber que ofício é esse que - de bem - o s’or vive e que faz o s’or estar-se assim: de tocaia?... 

REIVALINO  - Pois não me finja o s’or que não sabe, que por este mundo só se véve de tocaia! ... Não sabe, não?

DAGOBÉ      - Sei! (TEMPO) Qual é mesma a sua graça de nascença, que não pude ouvir direito?

REIVALINO  - Não ouviu porque eu não disse, só por isso!

DAGOBÉ      - Pois se quiser dizer, eu ouviria... Meu nome chamado é Dagobé! ... Do Mato Grosso ... do Sul! ... Alguns por aí me conhecem, em especial as quengas perdidas da zona dos meretrícios! (RI QUERENDO A AJUDA E CUMPLICIDADE E TENTANDO FICAR MAIS À VONTADE NA CONVERSA) ... Essas me conhecem de certo!...

REIVALINO    - Dagobé? ... Putanhero do Mato Grosso do Sul?...

DAGOBÉ      -  Exato.

REIVALINO  - ... Nunca ouvi dizer!...

DAGOBÉ      -  Por aqui não sou tanto, mas, se o s’or indagar mais pro lado de Aquidauana, Miranda, Corguinho, Coxim...
.
REIVALINO  - Sei! ... E de ofício?...

DAGOBÉ      -  Meu? ... Já fui peão, já lavrei em garimpo e em minas de ouro e diamante, já fui ferreiro, já lidei com gado, lavoura de algodão... já fiz de um tudo e mais um pouco nesta minha vida!...

REIVALINO  - E hoje?

DAGOBÉ      - Assim: pra que desejaria o s'or de saber, será? De mim, assim... hem? ... Nem eu sei sua graça e nem nada e tenho que responder, será? ...

REIVALINO  - (NUM RESMUNGO) ... Reivalino.

DAGOBÉ      - O que era? ... Como disse o s'or?

REIVALINO  -(MAIS ALTO) ... Reivalino!

DAGOBÉ      - Bonita graça!... Nome nobre, bem posto! ... Reiva...?...

REIVALINO  - ... Lino! ... Rei... va ... li ... no! ...

DAGOBÉ      - Certo! ... E ... de onde?...

REIVALINO  - Goiás.

DAGOBÉ      - Lindo estado! ... Goiás! ... Nunca não estive por lá, não! ... Mas, dizem que é lugar formoso total! ...

REIVALINO  - Nem é...

DAGOBÉ      - O povinho aumenta, não é? (VAI PEGAR UM CIGARRO DA GUAIACA E O OUTRO CISMA COM A PONTA DA FACA) ... Nada! ... Só pegar o pito! (TIRA O FUMO E A PALHA E ESTENDE  OFERECENDO) ... Faz gosto? ...

REIVALINO  - Me dê!... Pode assentar, mas, por hora, fique mais pra cá, mais longe da dois-canos ...
(DAGOBÉ SENTA-SE E ENROLA DOIS PITOS ENQUANTO O OUTRO - REIVALINO - SE CHEGA MAIS PRA LÁ, OLHANDO OS TRENS DO MULATO. QUANDO TERMINA, DAGOBÉ MOSTRA OS PITOS AO BRANQUIÇO FAZENDO NA CARA UM PEQUENO SORRISO DE AMIGOS)

DAGOBÉ      - ... Tem a binga? ...

REIVALINO  - Aqui! ... (PEGA E JOGA O ISQUEIRO PARA O MULATO QUE ACENDE OS DOIS CIGARROS NO BEIÇO E DEPOIS TIRA DE UM)...

(FIM DA CENA 01)


3 comentários:

GILBERTO MASSUT COELHO disse...

Parabéns pelo texto. Gostei muito da primeira cena de amostra, pelo que se percebe a sua peça deve ser muito boa.
Envie notícias quando for estrear esse texto.

Prof. Gilberto Massut
Brasília / DF

Anônimo disse...

Pensei que esse texto tivesse a participação do TUPA....

ENÉAS LOUR disse...

Este texto, ou melhor, esta primeira cena, tem sim a participação do meu grande compadre e parceiro Tupaceretan Matheus, que ia fazer ao meu lado a personagem Dagobé. É verdade, sim senhor! ... Amém.