ENÉAS LOUR É ATOR, DRAMATURGO, CENÓGRAFO E DIRETOR TEATRAL

30 de abr de 2010

DEUS É JUSTO MAS NÃO É APERTADO!

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KARATE KID CONTRA UM SIMPLES BÊBADO COMUM

Entrei no bar 
– mesas de fórmica branca – 
eram onze e pouco. 
Pedi um bolinho de carne e uma meia cerveja. 
A televisão gritava uma musiquinha estúpida 
no alto do canto azulejado. 
O japonês 
– sorriso – 
abriu o forninho de vidro sobre o balcão 
e caçou uma bolota de carne moída
com os dois pauzinhos, 
ágeis e melados de graxa de pastel,
e a colocou dentro de um prato de alumínio amassadíssimo 
que empurrou para mim enquanto mergulhava 
no balcão frigorífico atrás da meia cerveja. 
Voltou com a garrafinha 
e com um estouro arrancou a tampinha que 
– mágica – 
deu três giros mortais no ar 
e caiu dentro de uma caixa de papelão 
cheia de tampinhas mortas. 
Tudo muito rápido. 
Pegou um copo e 
- malabarista do Circo de Tóquio- 
fez três giros também no ar 
antes de vir parar em minha frente, sobre o balcão. 
O japonês riu e disse lá alguma coisa em nipo-português que 
– juro – 
não entendi. 
Mas, ele riu assim mesmo.
Enchi o copo e mordi a bolota de carne moída olhando a TV.
- Tem uma pimentinha? 
(Implorei ao japonês querendo disfarçar 
o requintado sabor da iguaria gordurosa)
- Pimentinha? 
Disse balançando a cabeça - que sim – o National Kid.
- É!
- Só tem molho! 
E apontou o pote de plástico vermelho-grudento 
logo ali ao lado, no balcão.
- Ah, ta! ... Tudo bem, obrigado! ... 
Eu disse enchendo a boca de cerveja.
Foi aí que ele entrou.
Um desses homens-lixo que vagam pelas cidades. 
Desses bem podres. 
Cabelos compridos grudados com terra; 
unhas pretas; joelhos de fora nos rasgos da calça; 
olhos inchados; alguns dentes; 
um pé com chinelo havaiana e o outro com ferida grandona.
O japonês fez cara de kamikaze e já foi enxotando o bicho.
O imundo parou no meio das mesinhas brancas 
e olhou para todo mundo no boteco. 
Eu, dois PMS lá no fundo e mais um velho que já ia saindo. 
Depois enfiou a mão dentro da calça 
e massageou as suas partes 
dizendo assim, com seu sotaque alcoolizado: 
“Deus é justo, mas, não é apertado!” 
E olhou pra mim, que quase ria da frase, 
me mostrando uma cara que dizia assim: 
“Ta rindo do quê?”
Ele aproximou-se ignorando o nipônico 
que urrava sons incompreensíveis para qualquer um 
e apontava a porta da rua lá de trás do balcão. 
Aí o imundo-filósofo-bêbado repetiu, 
com seu bafo bem dentro do meu nariz, 
a sua frase triunfal : 
“Deus é justo, mas, não é apertado!” 
E riu.
E eu disse 
– sem saber o que dizer – 
- Ta certo! 
E ri timidamente.
O japa veio feito um aviãozinho 
riscando o céu em direção ao destróier preto e sujo, 
mas, quando estava quase batendo nele, 
o bicho-podre-obsceno 
tirou do saco plástico um maço de notas miúdas amassadas 
e umas moedas que botou sobre o balcão dizendo: 
- “Põe pra mim duas pingas e me dá um quibe também! ...”
O japonês viu as notas e parou 
e resmungou e serviu o pedido direitinho 
depois de embolsar a grana miúda 
no bolso do avental meio encardido.
O monstro-podre e vesgo comeu o quibe de uma vez 
e depois virou a primeira pinga. 
A segunda degustaria mais devagar, 
com o dedinho mínimo levantado 
e dando só pequenos goles olhando tudo devagar.
Eu ali do lado bebi minha cerveja 
e acendi um cigarro. 
(Não ofereci para evitar papo.)
- O senhor me dá um cigarro, amigo?  
Disse ele em seguida.
Dei. 
Mas, acendi sem olhar nos olhos dele para evitar papo.
- Muito agradecido, amigo! 
E tragou fundo.
Os dois soldados PMs lá na mesa do fundo, 
já coberta de garrafas de cerveja, 
riram do pobre-diabo-maloqueiro-poeta
que julgou enfim ter conquistado platéia 
e, por isso, resolveu repetir a própria poesia teológica e disse: 
- “Deus é justo, mas, não é apertado!”
Riso de todos,
menos do Karatê Kid enferruscado 
que lavava copos na pia e balançava a cabeça negativamente.

O show-man podre se entusiasmou 
e gritou para os milicos : 
-“Deus é justo, mas, não é apertado!”
Eles riram.
Ele dançou uns passos bêbados 
não meio do bar 
com os dois dedos indicadores indo e vindo 
para cima e para baixo: 
- “Deus é justo, mas, não é apertado!”
Várias vezes, 
até que foi perdendo a graça 
e nem eu nem os milicos olhávamos mais para o 
chato-podre-preto dançarino.

O Japonês grudou-se no celular 
e falava coisas incríveis em sua língua natal.

Terminei a cervejinha 
e o papagaio-bêbado-craquento 
continuava se balançando no puleiro 
repetindo a sua marchinha de carnaval:

 “Deus é justo, mas, não é apertado!”
“Deus é justo, mas, não é apertado!”
“Deus é justo, mas, não é apertado!”
...

Até que cansou. 
Terminava a segunda pinga 
e já revirava o pacote plástico 
atrás de uma moedinha para adquirir 
mais um martelinho e depois, 
quem sabe, seguir viagem pela rua.

Fui ao banheiro.
Um quartinho minúsculo 
lá no fundo do bar 
onde não havia mais ar nenhum 
e o cheiro de mijo ardia nos olhos. 
Entrei segurando o pouco ar que tinha em meus pulmões 
e mijei a cervejinha toda num jato espumante e rápido. 

Saí louco para respirar de novo 
e vi o japonês lá na porta do bar,
com as mãos na cintura
olhando lá pra rua.

Lá fora os dois miliquinhos PMs 
davam porrada pra cacetete em alguém caído na calçada. 
Procurei pelo bar com os olhos. 
Era nele que batiam. 
Senti um frio na barriga, 
corri até a porta e parei com as mãos na cintura.

Era mesmo nele a tunda: 
coturnos na barriga; nas costelas, no saco. 
Pauladas na cabeça, na boca, nos braços 
e palavrões no pé-de-ouvido.
Os dois PMs desciam o cacete 
no coitado-podre-preto-velho
que já era só uma bolota de carne moída 
encolhida no meio-fio, ao lado dos sacos de lixo, 
cascas de laranja, guardanapos 
e latinhas de coca-cola e guaraná.
E eu olhando.
Aí os dois PMs juntaram 
o chorão-pau-dágua do chão 
e o jogaram lá pra dentro da viatura.

Lá de dentro o olhar dele, 
vazando sangue,
encontrou o meu.
E ele riu pra mim. 
Riu com aquela boca-mole 
vermelha desdentada de pobre-animal-poético-urbano. 

Riu como se ainda repetisse: 
- “Deus é justo, mas, não é apertado!”

O bolinho me voltou até a boca 
quando os PMs fecharam o camburão 
e ligaram a sirene e saíram cantando pneu pela rua 
levando o pacote vermelho e preto.
O japonês também riu.
Riu e disse assim com seu sotaque amarelo:
- Essa gente tem que tratar assim, senão já viu, né?

E entrou no seu boteco fedido pra fritar mais um pastel.


Enéas Lour
Fev. 1988

(Ilustração : Enéas Lour)

Um comentário:

J. Olímpio disse...

Putz, que delícia de texto, Enéas! Salvou o meu sábado, gracias!
Abração!!